O cúmulo da covardia é não conseguir se livrar daquilo que te faz mal. É querer guardar pelo menos um pedacinho, por medo de não sentir ou medo de errar. É temer abdicar do falso conforto (ou não tão falso assim) que a melancolia nos trás. Talvez o pior seja enganar-se, assumir uma condição de estabilidade quando se sabe que ela não existe de fato. E nos acovardamos incessantemente, como num ciclo, até que o torpor nos consuma e a necessidade de pisar fora da zona de conforto seja gritante, abrasiva, pressurizante. Num acesso de momentânea coragem é possível fluir novamente. Eu gostaria que não fosse só um acesso, gostaria que isso fizesse parte de mim, uma parte que eu pudesse acessar sempre que necessário. Pudera eu seguir em frente e esquecer como é ambígua a presença da melancolia, gostaria de desfazer-me dela, jogá-la fora como lixo, como resíduo, como restos mortais de algo que já não mais existe e que não fará falta. Gostaria de não chorar por ela quando fosse embora, mas não sou egoísta para tentar removê-la tão rapidamente e de maneira tão brusca. E, mais uma vez, sou covarde.

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